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Decisões difíceis

Entre património e negócio nem sempre é fácil escolher

Todos sabemos que os produtores portugueses se debatem frequentemente com este dilema cheio de interrogações: que castas vou plantar, o que quero vender, que mercados quero atingir, que público é o meu e qual é o posicionamento do meu vinho em termos de preço. Algumas regiões têm o assunto das castas mais ou menos resolvido, como é o caso do Vinho Verde, do Douro e Dão. Já na Bairrada o dilema é enorme porque a região tarda em afirmar-se essencialmente como zona de brancos e a aposta na casta Baga é um risco que nem todos podem correr. Neste tema a Bairrada tem pontos de contacto com as outras regiões do sul do país: teve de recorrer a castas não tradicionais para se conseguir “chegar à frente” e não perder o negócio. Neste tema está no mesmo dilema que as regiões de Lisboa, Tejo, Setúbal e Alentejo. Em todas elas existiam castas que faziam o papel de “típicas” ou “tradicionais”, nalguns casos com mérito, noutros sem qualquer valia já que apenas produziam muito. O tinto Quinta do Avelar que hoje apresento é um bom exemplo: incorpora cinco castas da região estremenha, entretanto convertida em Lisboa: Aragonez, Camarate, Castelão, Tinta-Miúda e Trincadeira. Tudo castas antigas e tradicionais, algumas ibéricas como a Tinta-Miúda que é a Graciano na Rioja e outras que hoje ninguém fala e pouco se plantam. Mas esta era a imagem dos tintos da região. No Tejo pontificavam castas hoje esquecidas como a Tália, Boal Alicante, Trincadeira das Pratas e muito Castelão. Em Setúbal sempre se trabalhou com Castelão nos tintos, Moscatel e Fernão Pires nos brancos mas hoje nestas regiões do sul proliferam castas importadas de outras regiões, quando não do estrangeiro. Fica então a pergunta: o que ganhamos e o que perdemos com as mudanças? É aqui que entra a balança para decidir entre património e negócio. Difícil é mesmo escolher porque é errado criticar um produtor que optou em Lisboa por Chardonnay, Sauvignon Blanc ou Viognier em vez de Seara Nova ou Vital, quando nos diz que agora vende o que nunca vendeu, porque faz o que os consumidores apreciam e estão dispostos a valorizar. O mesmo se passa em Setúbal onde actualmente se trabalha com 20 castas e o Alentejo que absorveu variedades de todo o lado. Creio, no entanto, que a opção não deve ser por um dos pratos da balança, desprezando o outro. As castas antigas, mesmo as que não têm grandes virtudes, devem ser preservadas porque essa é a nossa identidade, é o que nos diferencia dos outros. É que, por muito bons que sejam os nossos exemplares, Chardonnay e Sauvignon Blanc fazem-se em todo o mundo mas o Esgana-Cão, Vital, Rabo de Ovelha, Tamarez e Moreto (entre muitas outras) são variedades identitárias e que têm (devem) ser preservadas. O equilíbrio ente negócio e património, não deixando morrer as variedades antigas e portuguesas é um desafio mas vai com certeza valer a pena agarrá-lo.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Casa das Gaeiras branco 2017
Região: Óbidos
Produtor: Tapada das Gaeiras
Castas: Arinto, Chardonnay e Fernão Pires
Enologia: Vera Moreira/António Ventura
PVP: €4,49
Marca clássica já com muitas décadas de história. Existe outro com Vital, a casta emblemática das Gaeiras.
Dica: belo branco para a mesa, com volume, textura e muito carácter. E, para o preço, é um achado.

Vinha da Peijona Vinho de Parcela tinto 2016
Região: Douro
Produtor: Manuel José Lopes
Castas: lote de 7 castas
Enologia: Pedro Sequeira
PVP: €20
Pequena vinha adquirida em Covas do Douro por emigrante no Luxemburgo. Pisa a pé e estágio de 18 meses em barricas de 500 litros.
Dica: pertence à nova geração dos douros, pouco macerados mas focados na fruta e no equilíbrio corpo/acidez. Muito bem.

Quinta do Avelar Vinhas Velhas tinto 2015
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Soc. Agro-Pecuária da Qta. do Avelar
Castas: lote de 5 castas
Enologia: Mário Andrade
PVP: €7,50
Um óptimo exemplar do estilo antigo da região feito só com castas locais.
Dica: aberto na cor, muito clássico no aroma, intensamente gastronómico. Um português e tanto…

 

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