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Preservar a riqueza é a nova regra

Mesmo gastando as solas

Um dos vinhos que seleccionei hoje, o Bota Velha, assume-se como resultado de uma busca intensa, no Douro, onde foi preciso calcorrear muito para se descobrir a vinha que se queria. Vinha velha, claro. Mas, claro dizemos nós agora, quando é evidente para todos que as vinhas velhas não só são um património a preservar como são as responsáveis pelos vinhos mais originais da região. Nem sempre foi assim e já atravessámos períodos em que arrancar era a regra, bom mesmo eram as vinhas novas. Fica então a pergunta: qual o segredo da vinha velha? Comecemos por uma constatação: os grandes vinhos do mundo, ou pelo menos os mais famosos, apreciados e cobiçados vêm de vinhas velhas! Não será por acaso. Mas só por si, velha não significa boa e uma vinha originalmente de fraca casta não melhora com a idade e está assim condenada ao arranque. Para chegar à velhice em forma muitos cuidados se tiveram com a vinha ao longo da vida, que em alguns casos pode ultrapassar os 100 anos, produzirá pouco mas será mais regular na produção e estará mais defendida dos acidentes climáticos, nomeadamente a seca. Existe actualmente uma maior consciência do valor destas vinhas velhas e a sua descoberta pode ser uma boa cartada, ainda que para isso se tenham que gastar muitas meias-solas. Mas o arranque de uma vinha velha pode (deve, digo eu…) ser um momento importante no que diz respeito à preservação do património genético. Hoje temos em Portugal uma organização – PORVID – que preserva para memória futura as nossas castas e os variados clones conhecidos de cada uma delas. Um trabalho hercúleo, de mérito imenso e que nos coloca na vanguarda da investigação mundial neste tema. Em Pegões estão 70 ha de cepas e clones e a investigação continua. Arrancar uma vinha velha pode significar uma enorme perda de valor se os “garfos” da vinha velha não foram conservados e reproduzidos. Os serviços técnicos das Comissões Vitivinícolas devem servir de intermediários para esta preservação de património. Estes cuidados actuais contrastam com a razia que no final dos anos 80 se verificou no Douro quando houve dinheiro do Banco Mundial para o alargamento da área de vinha com castas recomendadas. O arranque generalizou-se, plantou-se mal e sem critério e ainda hoje estamos a penar, a ter de refazer o que então foi feito. Os mesmos técnicos que tanto se entusiasmaram na altura fazem hoje mea culpa, reconhecendo que é preciso retomar fórmulas antigas que durante séculos mostraram ser as de mais-valia na região e que algumas das castas então menosprezadas estão hoje na primeira linha das escolhas dos produtores. Aprender é também errar e pode dizer-se que o conhecimento entretanto adquirido nos assegura que vamos agora fazer melhores vinhas e, se o bom-senso não nos abandonar, melhores vinhos. E refiro aqui o bom-senso porque, com frequência as modas e manias toldam o discernimento, dos produtores, dos enólogos e, por via deles, dos consumidores.

Sugestões da semana:
(Os preços referem-se à Garrafeira Tio Pepe, no Porto)

Bota Velha Vinhas Antigas branco 2017
Região: Douro
Produtor: João Silva e Sousa
Castas: castas misturadas da zona de Tabuaço e Murça
Enologia: João Silva e Sousa
PVP: €13,50
Um branco delicado e complexo com bom potencial de vida em cave.
Dica: pratos delicados de peixe ou mesmo marisco cozido.

Discórdia Reserva tinto 2015
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Edual – Herd. Vale de Évora
Castas: Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Touriga Franca e Syrah
Enologia: Filipe Sevinate Pinto
PVP: €16,90
Tem origem na zona de Mértola, no parque do Guadiana. Tem estágio parcial em barrica.
Dica: robusto e cheio mas com boa harmonia, a pedir pratos bem temperados.

Barbeito Verdelho branco 2017
Região: Madeira
Produtor: Vinhos Barbeito
Castas: Verdelho e um pouco de Sercial
Enologia: Ricardo Diogo
PVP: €25
Primeira incursão da Barbeito nos vinhos não generosos, juntando uvas de zonas diferentes da ilha.
Dica: um branco gastronómico, salino e sério, moderado na fruta e com boa acidez.

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