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Há que assumir: estamos condenados!

Grandes vinhos…maiores tristezas

A condenação chegou por via noticiosa, numa publicação mensal francesa. Não para mim em especial, não para os portugueses em geral, mas sim para todos os amantes dos grandes vinhos, das grandes marcas, das regiões famosas, dos vinhos de sonho. Expliquemo-nos. Numa região tão cheia de história, tão rica de diversidade e tão atractiva como a Borgonha, chegam-nos cada vez com mais frequência notícias que são, no mínimo, tristes. Repare-se: um dos produtores mais famosos – Henri Jayer – há doze anos falecido, foi figura de monta na região pelas inovações que introduziu e tradições que se apegou em manter e os seus vinhos sempre foram muito cobiçados e caros. Mas, caramba, não era preciso chegar a isto. Acontece que, de uma das suas parcelas mais famosas – Cros Parantoux – nasceu um vinho tinto que se tornou um verdadeiro mito, sempre muito procurado pelos apreciadores. Em recente leilão na Suíça, 18 garrafas magnum deste tinto, cobrindo todas as edições, de 1978 a 2001, foram adquiridas por um coleccionador asiático por um milhão de euros (escrevi por extenso para que não restassem dúvidas…). A quantia é obscena mas mostra bem como a entrada de novos compradores, sobretudo orientais, veio deturpar completamente a lógica do consumo tornando os vinhos não um objecto de prazer e partilha mas apenas uma commodity, um produto de transacção financeira e investimento. Nada disto deveria estar na cabeça do senhor Henri quando tomou conta desta parcela a seguir à segunda guerra. Estamos, portanto, na situação ridícula de não podermos avaliar o esforço e dedicação que o produtor pôs no vinho porque… já não é para beber é para vender e quem compra, provavelmente, venderá no leilão seguinte. Cada vez mais esta é a triste história dos grandes vinhos do mundo, aqueles sobre os quais gostaríamos de dizer: este já bebi e era fantástico! Afinal, quem licita se calhar não bebe, não gosta, não sabe, não se interessa, mas tem todo o dinheiro do mundo para gastar e não olha a preços. Ficamos assim a ver, de longe, os “bebedores de rótulos” a tomarem conta dos vinhos mais reputados. É a vida, pode dizer-se, mas é injusta. Para afogar mágoas proponho hoje três belos vinhos: um Moscatel de Setúbal Superior que usou aguardente de Armagnac para interromper a fermentação e daí resultou um generoso muito original, de grande riqueza e complexidade. Embora a origem da aguardente a usar não seja determinante para a qualidade final, é verdade que neste caso o vinho ganhou um extra que merece prova atenta, até pelo preço convidativo. Do Douro chega-nos um rosé de grande nível, de um produtor de referência e, do Tejo, um branco bem conseguido. Por cá não precisamos de gastar muito para beber bem. Vamos aproveitar.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Reserva rosé 2017
Região: Douro
Produtor: Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo
Casta: Tinta Roriz, Tinta Francisca
Enologia: Jorge Alves e Sónia Pereira
PVP: €19,40
Fermenta em inox e tem depois estágio em três tipos de barrica. Apresentação magnífica.
Dica: boa complexidade mas exagerado no álcool (14%). Para a mesa e com alguns cuidados porque, como é macio e fresco, pode “subir” muito.

Falua Reserva branco 2017
Região: Reg. Tejo
Produtor: Falua
Castas: Arinto, Verdelho e Fernão Pires
Enologia: Antonina Barbosa
PVP: €13,50
A combinação das três variedades está bem conseguida e a barrica ampara o conjunto.
Dica: macio, envolvente, bem afinado, bom para bacalhau à Braz, por exemplo.

Colecção Privada DSF Moscatel de Setúbal Superior 2002
Região: Moscatel de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Casta: Moscatel de Setúbal
Enologia: equipa dirigida por Domingos Soares Franco
PVP: €24,99
A classificação de Superior obriga a pontuação mais alta na Câmara de Provadores e idade mínima de 5 anos mas podem indicá-la até um máximo de 40 anos.
Dica: aroma fantástico, com uvas em passa a percorrerem a boca. Elegante, fresco, final muito longo. Vale cada cêntimo.

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