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O barro regressa ao topo

Num ápice, dos jardins para as adegas

Até há poucos anos as talhas de barro eram vendidas por todo o lado com o objectivo de decorarem jardins de relva de casas bonitas, não raramente no Algarve. Havia depois umas quantas adegas que as usavam para fazer vinho mas isso era entendido mais como folclore, uma espécie de apego à tradição, com uma vertente etnográfica e saudosista. Mas a História já nos ensinou que as modas vão e vêm e por vezes os regressos são não só muito saudados como abraçados por muitos. Foi o que aconteceu com as talhas. Em uso desde o tempo dos romanos, características do Alentejo e sempre assumidas como responsáveis por vinhos originais ainda que difíceis, as talhas estão de volta. De se venderem à discrição para jardins, passámos para a situação actual em que encontrar uma talha de boa capacidade e em condições para nela se fazer vinho não só é quase impossível como convém ter cerca de 1000 € para pagar cada uma que se descobrir. As razões do renascimento podem ser encontradas num movimento que procura os vinhos diferentes, sejam eles feitos em ânfora, em talha, em cimento (algo que já era tido como ultrapassado) ou mesmo em pedra. Associando-se aos “recipientes” vieram as técnicas, umas inventadas, outras repescadas do antigamente: vinhos brancos com curtimenta, vinhos sem sulfitos, sem adição de leveduras, tintos com pouca maceração, com pouco grau, enfim, um conjunto de técnicas que nem sempre são usadas com o conhecimento e bom-senso desejáveis mas isso é conversa que fica para outra crónica. As talhas voltaram em força para fazer vinhos tintos e brancos, mantendo-se o Alentejo como região privilegiada para a sua produção mas havendo quem esteja a utilizar a mesma técnica noutras zonas do país. De qualquer forma convém distinguir entre talha e ânfora; a primeira usada sobretudo para a vinificação, a segunda, bem mais pequena, para estágio. Tamanhos e capacidades podem variar imenso mas talhas entre 600 e 1000 litros de capacidade são vulgares no Alentejo. Como o barro é muito poroso usava-se um método de revestimento do interior feito com pez (resina de pinheiro) aquecido. O “pesgador” tinha depois o seu segredo, uns usavam azeite quente que misturavam com o pez, outros, cera de abelha. A talha era deitada no chão, rolava, e o revestimento ia, lá dentro, agarrando-se às paredes. Mas a talha é caprichosa e, sem os devidos cuidados e conhecimentos, pode rebentar durante a fermentação, espécie de feitiço que cai sobre quem ousa voltar a esta técnica. Hoje temos vários produtores alentejanos com vinhos de talha ou ânfora, dos pequenos de sempre às empresas grandes. Uns mais fiéis à tradição, com aromas difíceis e estilos fora de moda (como o Mamoré de Borba Petroleiro, misturando uvas brancas com tintas), outros de maior compromisso entre as técnicas antigas e o gosto actual, uns fermentados, outros apenas estagiados, como os que sugerimos esta semana. Um regresso que se saúda, só faltando agora encontrar quem as faça, uma vez que as talhas existentes não chegam para as encomendas.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Tapada do Coronel Vinho de Talha branco 2017
Região: Alentejo
Produtor: Ares Alentejanos
Castas: Arinto, Roupeiro e Antão Vaz entre outras
Enologia: Sónia Martins
PVP: €20
Feito na serra de São Mamede, usando castas locais e vinhas velhas.
Dica: um vinho que deve sempre ser provado primeiro para que se capte o estilo. Depois então pode ser ligado à comida. E funciona!

Herdade do Rocim Clay Aged branco 2017
Região: Alentejo
Produtor: Rocim
Castas: Verdelho, Viosinho e Alvarinho
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €35
Este branco, que usa castas que não eram as que antigamente se usavam nestes vinhos, tem estágio em potes de barro.
Dica: muito carregado na cor, de perfil aromático próprio mas com um estilo acessível e gastronómico.

Esporão Vinho de Talha branco 2017
Região: Alentejo
Produtor: Esporão
Casta: Diagalves
Enologia: David Baverstock/Sandra Alves
PVP: €25
A casta pertence ao núcleo das esquecidas da região. Branco carregado na cor, bem fiel à técnica da fermentação em talha.
Dica: realmente radical no estilo, de sabor antigo e totalmente fora de moda. A conhecer, para se ficar a saber como era dantes.

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