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Tempestade anunciada

E não é do clima que aqui tratamos…

Já todos sabemos que a viticultura é uma empresa a céu aberto, muito dependente do clima. O sonho de qualquer enólogo é que entrem na adega uvas sãs, com a maturação perfeita, vindimadas na altura certa e que permitam depois fazer um bom vinho. Diz-se, com alguma razão, que ao enólogo cabe não estragar, antes potenciar, a qualidade das uvas que tem ao dispor. Só que há aqui imensos “se” que podem modificar a equação: se choveu na floração, se houve geada ou granizo, se houve escaldão, se houve stress hídrico, se choveu na vindima, um sem número de “se” que condicionam o resultado final. Por isso se diz que não há duas vindimas iguais, de tal forma um daqueles elementos pode influenciar dramaticamente a qualidade final. Há depois uma atitude de maior ou menor intervenção do produtor na vinha, procurando minorar os efeitos negativos dos acidentes climáticos, obrigando a tratamentos preventivos ou curativos. As regiões de climas mais secos precisam de menos intervenções, as de clima frio e húmido levam a que por vezes se chegue aos 20 tratamentos/ano. Ora se tudo isto não bastasse já para atormentar a vida do lavrador, começa a desenhar-se no horizonte um problema gravíssimo que acresce a todos estes e que pode deitar por terra o trabalho de todo um ano: a mão-de-obra! Nesta vindima de 2018 sentiu-se de forma dramática e anuncia-se no futuro uma catástrofe, caso não se consiga resolver o problema. O que aconteceu foi que, em primeiro lugar foi difícil contratar empresários agrícolas que assegurassem vindimadores: depois, todos com quem falámos se queixaram, não se cumpriram os acordos estabelecidos. “Para amanhã e dias seguintes arranjo-lhe 10 pessoas para vindimar”, disse o empresário; excelente notícia, pensava o lavrador. No dia seguinte ou não aparecia ninguém ou dos 10 vinham 2. Isto foi assim toda a vindima e mesmo na Madeira onde, talvez ingenuamente, se pensou que com o regresso da Venezuela de muitos luso-descendentes seria fácil conseguir vindimadores, foi um drama ter quem quisesse vindimar. Esta situação é bem mais dramática em regiões como o Douro, onde a vindima mecânica é impossível e vem criar uma situação nova, catastrófica e que pode hipotecar o futuro. Andam os enólogos a fazer estudos de maturação para que se vindime cada casta ou parcela na altura certa e depois tudo sai furado porque não se conseguiu quem fosse apanhar as uvas. Castas como a Tinta Barroca, por exemplo, podem, em ambiente de calor estival, passar facilmente dos 13º de álcool provável para os 17º se se atrasar a vindima uma semana. Em vez de vinho vamos fazer compota de uva! Não sei qual pode ser a solução mas ou se criam incentivos a quem se dispuser a ir para as vindimas remunerando bem melhor o trabalho e a região tem de deixar de produzir vinhos baratos (até no caso do Vinho do Porto) ou, tal como muito bem alertou Paul Symington, a região não tem futuro e vamos deixar as uvas na vinha. Que tristeza, digo eu…!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Marquês de Borba Colheita tinto 2017
Região: Alentejo
Produtor: J. Portugal Ramos
Castas: lote de seis variedades
Enologia: equipa dirigida por João P. Ramos
PVP: €5,99
Parte das uvas fermentam em lagar. Estagia 6 meses em barricas usadas.
Dica: nova imagem, a mesma qualidade de sempre, pleno de fruta e de elegância. Um perfeito companheiro do quotidiano.

Aveleda Reserva da Família 2017
Região: Reg. Minho
Produtor: Aveleda
Casta: Alvarinho
Enologia: Manuel Soares
PVP: €9,50
Tem origem numa única parcela na zona de Penafiel, daí ter a designação Regional e não Vinho Verde.
Dica: elegante e cítrico, com acidez viva que lhe autoriza longa vida em cave.

1808 Portugal Reserva rosé 2017
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Casca Wines
Castas: Touriga Nacional e Merlot
Enologia: Hélder Cunha
PVP: €8,99
O vinho teve 6 meses de estágio em barrica, algo pouco habitual em rosés.
Dica: boa complexidade e cremosidade, com perfil elegante, seco, bem gastronómico. Preço muito convidativo face à qualidade.

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