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Este ano não há vinho!

A ver pelo que dizem os enólogos…

O assunto desta crónica não é a colheita de 2018. Essa, dizem os optimistas, será uma colheita e tanto, não pela quantidade mas pela qualidade. O bom senso e já muitas vindimas passadas aconselham alguma prudência nestas afirmações bombásticas. Ao lado dos que afirmam ser a “colheita do século”, já ouvi outros a rirem-se dessa frase e afirmando que, boa sim senhor mas daí a ser a do século vai distância grande. Percebemos que os produtores queiram vender e valorizar a colheita mais recente mas há que deixar o tempo fazer o seu papel e confirmar, ou não, a valia da edição de 2018. O título prende-se com um anúncio que veio inserido da revista do Expresso do passado da 20. Numa página inteira anunciava-se que este ano não será lançado o Adelaide 2014, o tinto emblemático da quinta do Vallado. A ideia é um achado. Anuncia-se que não há vinho porque entre os enólogos não houve unanimidade e, quando é assim, não há edição e tem de se esperar mais um ano. A novidade é então anunciar algo que não vai existir, deixando no ar uma ideia de alto profissionalismo de quem decide, sobrepondo a prova aos interesses comerciais e às pressões do mercado e abrindo o apetite do consumidor. É uma boa ideia ainda que não seja uma novidade. Em Abril de 1997 escrevi uma crónica a que chamei “A arte de vender vinho”, cujo tema era precisamente algo semelhante, feito na Austrália pela empresa Penfolds. Então, um dos seus tintos emblemáticos, o Bin 707 Cabernet Sauvignon, não foi produzido e o título, também a página inteira numa revista inglesa, anunciava: “Our ‘95 vintage of Bin 707 could hardly be called a classic. Nobody will drink it.” O motivo era idêntico: não havia acordo entre os enólogos e eles, afirmava-se categoricamente, tinham a última palavra. O texto prosseguia peremptório: “At Penfolds, their word is law. For that particular vintage, then, end of story.” Em 1997 a minha crónica salientava esta peculiar forma de promover o vinho que consegue, pela negativa, dar uma ideia da enorme exigência e do rigor de quem produz. Com o título de Este ano não há Adelaide, o Vallado coloca-se assim na fileira dos que têm na qualidade um valor maior do que a “pressão do mercado”, termo estafado que ouvimos a cada esquina. É uma maneira diferente de fazer marketing, mais original e – o tempo o dirá – talvez mais eficaz. A tal pressão do mercado é uma panaceia que para tudo serve e tudo justifica: não se dá tempo ao vinho porque “o mercado pede”, produz-se sempre, seja a colheita melhor ou pior, faz-se do consumidor gato-sapato. Esta é uma guerra antiga entre a enologia e o departamento comercial das empresas, normalmente a puxarem a corda em sentidos opostos. Pode perceber-se que são as vendas que fazem as empresas ir para a frente, criar riqueza e crescer mas depois há os Adelaides, os Barcas Velhas e os Marias Teresas que têm obrigatoriamente de sair desta lógica demolidora e trituradora. Ao menos nos vinhos mais prestigiantes e que dão nome à região e ao país, tem mesmo de imperar uma outra forma de “ler” o vinho, dando-lhe tempo. Escrevi eu na crónica de 97: “Confessamos que gostaríamos de ver em Portugal um anúncio como aquele atrás referido”. Pronto. Demorou mas chegou!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Três Bagos Sauvignon Blanc branco 2017
Região: Douro
Produtor: Lavradores de Feitoria
Casta: Sauvignon Blanc
Enologia: Paulo Ruão
PVP: €9,50
Vinha em Vila Real, beneficiando assim da altitude para gerar um branco fresco.
Dica: muito boa expressão da casta mas com estrutura e volume, o que nem sempre se consegue nesta variedade.

Quinta do Vesúvio tinto 2016
Região: Douro
Produtor: Symington Family Estates
Castas: Touriga Franca, Touriga Nacional, outras
Enologia: Pedro Correia/Charles Symington
PVP: €50
Cada vez mais afinado e elegante, um grande, grande tinto do Douro.
Dica: guarde algumas garrafas e aprecie agora com um estufado de vitela, por exemplo.

Quinta do Monte d’Oiro Tinta Roriz tinto 2016
Região: Reg. Lisboa
Produtor: José Bento dos Santos
Casta: Tinta Roriz
Enologia: Graça Gonçalves/ Grégory Viennois
PVP: €19
Agricultura em produção biológica. Vinho de parcela virada a norte. 16 meses em barrica.
Dica: sempre muito expressiva a Roriz desta quinta. Elegante e fino, um tinto requintado.

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