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Vinhos famosos? Não, não chego lá!

É a isto que estamos condenados

O consumo de bons vinhos (leia-se: famosos) pode ter os dias contados para a grande maioria dos apreciadores. A razão para este facto há que encontrá-la nos novos consumidores entretanto chegados ao mercado e que, antes de chegarem ao apreço por este ou aquele vinho, começam por beber rótulos. E os rótulos querem-se famosos, raros e não ao alcance de qualquer um; há que mostrar a quem estiver a olhar – num restaurante, por exemplo – que eu posso beber apesar do preço, fazendo assim do vinho um índice de status. Uns podem, outros não! Estes novos consumidores vêm sobretudo do Oriente (China, Singapura, Rússia) e, no específico caso português, vêm sobretudo de Angola e Brasil. Há uns poucos meses, estava eu na loja gourmet do Corte Inglés, então ainda no mesmo piso do supermercado, conversando com o gerente da garrafeira, quando entra um brasileiro: oi, cara, tem Barca Velha? Tem Pêra-Manca? Quando se foi, disse-me o gerente: “isto é assim todos os dias, se eu tivesse paletes disto era o que mais vendia”. Lá fora não são estes os vinhos mais apelativos, são sobretudo os grandes borgonhas, os tais que por serem produzidos em pequenas quantidades, suscitam preços de loucura. Numa entrevista recente, o gerente do restaurante Cinq do hotel Four Seasons Georges V, em Paris (3 estrelas Michelin), referia que algumas marcas têm mesmo de ser colocadas na carta a preços elevadíssimos, ainda que não custem assim tanto; no exemplo que deu, Coche-Dury – Meursault (Borgonha), compra cada garrafa (das poucas garrafas a que tem direito…) a €200 e, diz, se as colocasse na carta a €900 o stock só durava uma semana e que se colocasse a €3000 durava 15 dias. Conclusão: para ter aquela referência na carta, o vinho é proposto a €6000. O preço é obsceno? Claro que é, mas para os escandalosamente ricos, 6000 euros são trocos e poder beber Coche-Dury é algo que, isso sim, não está a alcance de qualquer um (pela raridade e produção limitada). Não se pergunte agora se o vinho vale o preço porque essa é uma discussão académica, tal como é académica a interrogação sobre a valia do Barca Velha a €450, preço corrente em garrafeiras de Lisboa. O que daqui se conclui, com uma enorme tristeza, é que tais vinhos famosos e alguns deles carregados de história, de brilho e de glamour, vão ser consumidos por quem gosta de tintos com coca-cola ou quem não sabe distinguir se um vinho cheira ou não a rolha! Tal lamento também poderia levar a uma conclusão perversa: fosse outro o vinho que estivesse dento da garrafa e o tal milionário não dava por nada. A contrafacção começa aqui e alguns “especialistas” já estão a destilar na prisão. Pelo sim pelo não, é de aceitar como válida a tese de Alain Ducasse, celebérrimo Chef super estrelado: “pelo preço que cobro aos meus clientes, tenho a obrigação de lhes proporcionar duas horas inesquecíveis, independentemente do que eles sabem sobre vinhos e comidas”. Creio que Jean-François Coche-Dury deverá pensar o mesmo, ao saber o preço a que os seus vinhos brancos são vendidos.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Grainha Reserva branco 2017
Região: Douro
Produtor: Quinta Nova Nossa Senhora do Carmo
Castas: Viosinho, Gouveio e Rabigato
Enologia: Jorge Alves
PVP: €14,50
Encorpado mas elegante, cheio, com fruta e leves notas de madeira. Tudo em boa forma.
Dica: muito gastronómico, a pedir peixes no forno ou caldeiradas.

Ravasqueira Reserva da Família branco 2016
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Soc. Agríc. Dom Diniz
Castas: Alvarinho e Viognier
Enologia: Pedro Gonçalves
PVP: €13,50
Teve estágio em barrica. Fruta madura e bons tostados, tudo em perfeito equilíbrio. Ponderado na graduação.
Dica: com a presença na boca das notas de madeira, precisa de peixes com molho de natas ou queijos tipo Camembert.

Valle Pradinhos Reserva tinto 2016
Região: Reg. Transmontano
Produtor: Maria Antónia Mascarenhas
Castas: Tinta Amarela, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional
Enologia: Rui Cunha
PVP: €10,50
Vinho de referência da região, mantém uma assinalável consistência de qualidade e uma grande capacidade para viver bem em cave.
Dica: Clássica a ligação a borrego/cabrito assado mas também a uma posta na brasa. Sirva a 16/17º

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