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Bebemos bem mais do que se diz

E neste negócio não estamos sozinhos

As estatísticas do consumo de vinho a nível mundial vieram revelar-nos que os portugueses são os maiores consumidores, qualquer coisa como 51,4 litros per capita/ano. Uma barbaridade, pode de imediato pensar-se. De facto ainda não há muitos anos estávamos um pouco acima de 40 litros e agora já passámos os 50. Olhando friamente dir-se-ia que estamos a regredir, a beber mais, quando a ideia deveria ser consumir moderadamente, menos em quantidade e melhor em qualidade. Olhemos os números e olhemos também um pouco para o nosso passado. Tradicionalmente sempre fomos mais consumidores de vinho do que de cerveja e sempre disputámos com a França o primeiro lugar no ranking. Nos anos 80 chegámos a números assustadores que quase rondavam os 100 litros per capita mas de então para cá a tendência sempre foi de diminuição do consumo. As estatísticas, nomeadamente da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) baseiam-se em dados fornecidos pelos países membros e a forma de chegar ao resultado – dividindo a quantidade vendida num ano pelo número de habitantes com mais de 15 anos – pode dar ideia do que se consumiu embora não nos diga quem consumiu. Portugal está a consumir mais? Está, é verdade, mas o enorme fluxo de turistas que temos conhecido nos últimos anos tem seguramente uma enorme responsabilidade nos números finais do consumo per capita. Os dados oficiais, no entanto, não espelham a verdadeira face do país consumidor. Repare-se: qualquer produtor de vinho tem o direito a reservar 1000 litros para auto-consumo, de cuja existência não tem de comunicar a ninguém. Assim se explica por exemplo que se encontrem ainda tantas parreiras e cepas de uva americana (a tal de que se faz o vinho morangueiro), uvas essas que se podem destinar a fazer o vinho caseiro, o tal “do produtor” que alimenta o imaginário e a costela rural dos que vivem nas cidades. Tem um senão: se é para consumo próprio não pode ser vendido, incorrendo aí o produtor em delito punido por lei. Imagina-se assim que as garrafas que uma brigada de trânsito possa encontrar num carro, sem rótulo e sem qualquer guia de transporte ou factura, compradas ao produtor, são sempre “do primo” ou “do meu tio que mora lá na terra e que me ofereceu para os anos da minha mulher”, bla, bla! Mas, voltando ao cerne da questão, estamos a falar de 1000 litros por produtor e, se acreditarmos que em algumas situações o vinho se destina exclusivamente a consumo caseiro, espera-se que a família seja grande ou então estamos perante um “alcoolismo familiar” generalizado. Esta “produção paralela” evidentemente não está contemplada nas estatísticas oficiais mas, se estivesse, elevaria os índices de consumo para níveis assaz embaraçosos. E não estamos a incluir aqui os destilados, um negócio de centenas de milhares de garrafas/ano com teores de álcool que rondam os 40%. Nós a produzir, sem dizer a ninguém, 1000 litros para auto-consumo e outros, em países bem comportados nas estatísticas, a destilar em casa a partir de todas as frutas que encontram…! Um mundo que nos escapa. Estranho mas real.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Portalegre tinto 2015
Região: Alentejo
Produtor: Adega de Portalegre Winery
Castas: lote de cinco castas
Enologia: Nuno do Ó/José Reis
PVP: €18
A antiga adega cooperativa fechou portas mas os novos proprietários (Licor Beirão) mantiveram as marcas, como é o caso desta.
Dica: muito harmonioso, com densidade de fruta, um tinto cheio de carácter.

Quinta do Crasto Vinhas Velhas tinto 2013
Região: Douro
Produtor: Qta. do Crasto
Castas: castas misturadas na vinha velha
Enologia: Manuel Lobo Vasconcelos
PVP: €27,50
Deste tinto fazem-se um pouco mais de 100 000 garrafas, com muita consistência de qualidade ano após ano. Também já está disponível o 2015.
Dica: não é barato mas é um grande, grande vinho do Douro, absolutamente consensual.

Herdade do Rocim Reserva tinto 2015
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Rocim
Castas: Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Aragonez
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €14,50
As uvas foram colhidas em dias separados mas foram vinificadas em conjunto. Esteve 14 meses em barrica. Resultou com 15% álcool.
Dica: estilo elegante mas sem perder a concentração e o carácter maduro e quente da região.

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