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Colher tarde para beber cedo

As uvas são assim, dão para tudo

Vindimar em Dezembro não é, seguramente, uma prática habitual. Por muitas razões, sendo que uma delas é o apodrecimento das uvas, provável com as chuvas do outono. Mas quando não apodrecem com a chuva, as uvas ficam na cepa e acontece progressivamente um fenómeno de concentração de açúcares e de acidez e por isso essas uvas são muito mais doces. Nasceu então assim a ideia de fazer um vinho doce. Convencionou-se chamar-lhe um vinho de Colheita Tardia. Há muitas maneiras de fazer este tipo de vinho e até há hoje formas de “fabricar” um colheita tardia mais cedo, ou seja, não é preciso esperar por Dezembro para fazer um vinho doce. Costuma dizer-se que há perguntas que não se devem fazer a enólogos e esta do “fabricado” ou “natural” é de evitar já que poderemos não obter a resposta verdadeira. Mas voltemos ao colheita tardia: hoje é possível fazê-lo em qualquer região e em quase todos os cantos do mundo. É verdade que alguns ganharam justificada fama e são os mais cotados do planeta; estou a pensar em França (Sauternes – feitos de Sémillon/Sauvignon -, Alsácia e Loire), Alemanha (Mosel), Hungria (Tokaji) e África do Sul (Klein Constantia). Entre nós, só em 1988 surgiu o primeiro com o nome Late Harvest no rótulo, da empresa João Pires, feito com Fernão Pires. Hoje está morto mas à época foi um sucesso, aqui e lá fora. De então para cá aumentou muito o número deste tipo de vinhos mas só alguns deles merecem verdadeiro destaque. No grosso da coluna encontramos vinhos doces com boa acidez e álcool moderado mas a que falta alma e personalidade. No meio destes, temos alguns que merecem destaque, justificam a procura (nem sempre são fáceis de encontrar) e podem surpreender mesmo os palatos mais exigentes. Alguns deles nascem no Douro (Grandjó, Olho no Pé, Aneto), outros nos Vinhos Verdes (Ameal, QM) e em quase todas as regiões vamos encontrar estes vinhos que, conforme a associação vinho/comida que se fizer, tanto podem ser vinhos de entrada como de sobremesa. Tradicionalmente a ligação foie-gras/Sauternes é um dos grandes clássicos da culinária francesa, algo que os gauleses continuam a praticar na época natalícia sem ligar muito às campanhas anti foie-gras que grassam por esse mundo. Vive la France! O vinho deve ser servido bem fresco e rende muito porque cada conviva acaba por consumir uma dose bem pequena. Por experiencia sei que uma garrafa de ½ litro dá bem para 6 pessoas, resultando assim um preço per capita muito baixo. Não há assim razão para não se consumir um bom vinho. Como companheiro de final de refeição, e sempre bem fresco, o Colheita Tardia pode ser parceiro de sobremesas desde que não excessivamente doces, tais como arroz-doce, tarde de pêssego ou alperce, sempre sugestões onde o peso dos ovos não seja excessivo. Hoje sugerimos três vinhos deste tipo, todos de grande calibre e classe. Há que conhecê-los, sem o preconceito patético de que são “vinhos para senhoras” como já várias vezes ouvi.

Sugestões da semana:
(Os preços – meramente indicativos – foram fornecidos pelos produtores)

Aneto S Colheita Tardia branco 2010
Região: Douro
Produtor: Sobredos
Enologia: Francisco Montenegro
Casta: Semillon
PVP: €35 (garrafa de 0,5 l)
Esta marca já existe há alguns anos. Este é uma edição especial. Foram produzidas 1500 garrafas.
Dica: concentrado, rico, muito aromático, muito glicerinado. Um prazer.

Falcoaria Colheita Tardia branco 2014
Região: Tejo
Produtor: Casal Branco
Enologia: Manuel Lobo Vasconcelos
Castas: Viognier/Fernão Pires
PVP: €18 (garrafa de 0,375 cl)
É a estreia deste produtor neste tipo de vinho. Vinhas velhas em Almeirim.
Dica: grande qualidade, muita concentração, aroma de grande nível, bela acidez. A conhecer.

Klein Constantia branco 2008
Região: Constantia (Af. Do Sul)
Produtor: Klein Constantia
Casta: Muscat de Frontignan
PVP: €59,50 (garrafa de 0,5 l) na Garrafeira Tio Pepe – Porto
Marca clássica renascida já neste século. Um moscatel de elevado nível.
Dica: vinho raro, merece ser conhecido já que a fama remonta ao séc. XVIII.

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