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Aproveitar as podas

As técnicas antigas podem voltar a ser úteis

Estamos na época da dormência das vinhas, o período em que se faz a poda e se prepara a cepa para o renascimento, para o começo do novo ciclo vegetativo. A tarefa, bem mais complicada do que parece, exige treino e saber porque não se corta a eito, há que perceber o que se deve cortar o que deverá ficar. Isso, para um leigo que está a olhar para a cepa, não é nada evidente. Antigamente a tarefa da poda era reservada aos homens; partia-se então do princípio que as mulheres não entendiam do assunto. Recentemente soube de uma história já com bons anos, em que um técnico francês (a trabalhar para um produtor da região Tejo) quis ter as mulheres na vinha a fazer a poda. Escândalo, nem pensar, elas não sabem! dizia-se. Mas o técnico foi peremptório: não sabem? óptimo, assim fazem como eu disser! Da poda resulta uma enorme quantidade de lixo, tradicionalmente queimado ao lado da vinha, nos dias frios. Lixo? Pode ser, mas não necessariamente. As varas que foram cotadas podem servir para a enxertia de novas vinhas. Era desta maneira que até meados do século passado se faziam as novas plantações: pediam-se varas ao vizinho e plantava-se o que viesse (quem olha para uma vara nem se é branco ou tinto consegue distinguir, quanto mais castas…) e por isso plantava-se tudo misturado. Naturalmente indo as varas de um vizinho ao outro, todos naquela região acabavam por ter vinhas idênticas. Um destes dias no Facebook (também tem coisas boas…) um enólogo falou de uma vinha do Douro que esteve a podar e de lá tirou varas de castas muito antigas hoje quase extintas, como sejam, Preto Martinho, Tinta Pomar, Tinta Nevoeira, Tinta Malandra, Tinta Roseira, Gran Noir, Rufete, Malvasia Preta, Tinta Bairrada, Tinta da Barca, Mourisco Nacional, Mourisco de Semente e Casculho, além de algumas outras. A isto chama-se património vitícola nacional. Nem todas terão o mesmo interesse enológico, nem todas darão grandes vinhos mas todas podem ganhar mais méritos se forem estudadas pelos cientistas da vinha. A esse estudo temos muitos e bons homens de ciência, com devotada energia, a produzir trabalhos de qualidade com reconhecimento mundial e que muito têm contribuído para a melhoria de castas, como é o caso flagrante da Touriga Nacional. Mas vemos poucos produtores interessados em plantar estas varas. Porquê? Por esta simples razão, talvez absurda mas que tem algum fundamento: as plantas têm de vir de viveiristas e não podem ser plantadas à vontade de cada produtor, supondo-se assim que as plantas estão isentas de viroses. E há mais: para ter subsídios ao plantio e acesso a fundos europeus, só se se plantar o que vem indicado nos regulamentos e tudo certificado. Ficamos então assim: deitamos fora grande parte do nosso património, não reproduzível, porque temos regras de Bruxelas. Mas no entanto, suspeita-se agora, muitas plantas que vêm dos viveiristas trazem outras doenças, nomeadamente do lenho. Haverá quem tenha senso e ponha mão nisto?

Sugestões da semana:
(Os preços referem-se às lojas indicadas)

Dona Berta Sousão Reserva tinto 2013
Região: Douro
Produtor: Hernâni Verdelho Hos.
Enologia: Virgílio Loureiro
Casta: Sousão
PVP: €21 (Corte Inglés)
Esta é casta antiga e das que viram a luz da reabilitação, hoje está espalhada por todas as zonas da região.
Dica: agreste mas polido, concentrado mas com harmonia, pode ser grande parceiro da lampreia.

Volte Face Reserva tinto 2015
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Wines of Change
Enologia: Teresa Metelo Dias
Castas: Alicante Bouschet (75%) e Syrah
PVP: €9,90 (Garraf. Nacional, Lisboa)
Vinhos adquiridos na produção e afinados pela produtora. Tem tido edição regular desde a primeira colheita em 2009.
Dica: tinto elegante e muito bem proporcionado, dá muito boa prova agora.

Quinta dos Murças Reserva tinto 2012
Região: Douro
Produtor: Murças/Esporão
Enologia: David Baverstock/José Luís Moreira da Silva
Castas: vinhas velhas com várias castas misturadas
PVP: €22,80 (Garraf. Nacional, Lisboa)
Propriedade adquirida pelo Esporão entre a Régua e Pinhão com longa frente de rio. Terá tido a primeira vinha ao alto do Douro, em 1947.
Dica: muito bem desenhado, num equilíbrio bem conseguido entre potência e elegância.

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