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Teimosias natalícias

Nesta época ninguém cede…

Somos tendencialmente teimosos no Natal e não abdicamos das nossas tradições. Refiro-me aos petiscos mais do que aos vinhos. Essas tradições são sobretudo familiares mas também regionais embora possam ambas coincidir. São as nossas memórias de infância que queremos preservar e para isso sujeitamo-nos a tudo, até a comer peru. O bicho, coitado, nem é sequer figura simpática que nos pudesse merecer compaixão, não tem um cantarolar com graça nem movimentos graciosos e por isso não é dos que temos mais pena. Um pato bonito ou um ganso elegante seriam seguramente mais lembrados do que o pobre peru, condenado a ser embebedado em aguardente na véspera de ser cozinhado, isto por falta de anestésicos apropriados à raça em causa. De qualquer maneira longe vão os tempos em que, no Martim Moniz, em Lisboa, se viam os criadores de perus a vendê-los vivos e depois a parte animalesca da coisa ficava a cargo de quem comprava. Lembro-me do chinfrim que faziam, para já não referir a pouca qualidade aromática do ar que por ali se respirava. Outros tempos! Não era grande coisa? Pois, mas era a tradição familiar, tal como eram as filhós de abóbora, feitas a partir de receita deficiente em que o “peso” da farinha era bem superior ao da abóbora com a inevitabilidade que está à vista: comíveis na noite de Natal mas bolos duros e sem graça a partir do dia seguinte. Como se mudam estes hábitos? Provavelmente o melhor mesmo é não mudar mas, antes, melhorar as receitas. E aos perus do sul respondem no Norte com bacalhau cozido com couve penca (ah e tal, se não houver geadas não há boa couve…) ou com polvo, algo impensável abaixo do Equador nacional (Coimbra, digamos…); e, por lá, tratam de nos convencer que aletria é muito melhor que arroz doce. Já todos devíamos saber que estes temas não deveriam nunca ser objecto de discussão. As tradições regionais e familiares não são para discutir, são para seguir. E no caso dos vinhos, sem grande esperança que esta seja a melhor época para se abrirem as boas garrafas, resta-nos servir algo que dignifique o dono da garrafeira e ligue minimamente bem com os pratos servidos. E quando um familiar chega todo entusiasmado e traz uma garrafa (daquelas de €0,99) fazendo figura que está a contribuir para o repasto da família, resta-nos agradecer a generosidade fazendo o sorriso mais cínico que conseguirmos e rapidamente arrumamos a garrafa com o argumento que vamos provar antes outras e “lá chegaremos à tua”, concluindo depois que foi uma pena mas esquecemo-nos mas “não te preocupes que fica para a próxima”. O que o ofertante não sabe é que a “próxima” é uma frigideira com febras manhosas onde o tal vinho terá lugar assegurado. O Natal é para conviver mas sofre-se muito, caramba! Por isso, e deixando os calmantes de lado que também não é preciso exagerar, vamos lá pôr o melhor sorriso e levar esta carta a Garcia. E a partir de 26 cá estaremos para as águas com gás e compensadores estomacais.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, resultam de consultas de lojas on-line)

Dom Rafael branco 2016
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Vinhos da Cavaca Dourada
Enologia: Paulo Laureano
Castas: Antão Vaz e Arinto
PVP: €9,90
É o vinho branco produzido na herdade do Mouchão. O lote é o clássico alentejano.
Dica: há uma boa harmonia entre a fruta citrina e o corpo envolvente. Resulta muito gastronómico.

Quinta do Piloto Reserva tinto 2014
Região: Palmela
Produtor: Qta. do Piloto
Enologia: Filipe Cardoso
Casta: Castelão
PVP: €16
Proprietários de 230 ha de vinhas, são produtores há quatro gerações. Nas vinhas existem 30 ha de vinhas velhas de Castelão.
Dica: mostra-se muito bem e dá para conhecer melhor esta casta emblemática da região. E até pode ligar bem com as carnes natalícias.

Porto Vintage Quinta do Vesúvio 2015
Região: Douro
Produtor: Symington Family Estates
Enologia: equipa dirigida por Charles Symington
Castas: lote de várias castas
PVP: €69,50
Esta quinta no Douro Superior produz vintage praticamente todos os anos e a consistência de qualidade é enorme.
Dica: prove a solo e também com queijos secos, no final da refeição.

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