skip to Main Content
Menu

Assédio sexual? Mas é evidente!

Já nem a cepa está descansada…

Nos últimos dias temos assistido a inúmeras declarações, debates e sentenças relacionadas com o assédio. É nos meandros do cinema, é na Universidade, é por todo o lado que surgem os defensores dos bons costumes. A vinha (que não é o feminino de vinho nem tem relações próximas com ele), a vinha dizia, é formada por um conjunto de cepas indefesas, à mercê dos predadores. Ainda não chegámos ao assédio mas está quase. Ora, uma das bichas que gosta de petiscar na vinha e de fazer estragos que podem ser sérios, é a traça. Bicha minúscula a traça e, se a deixarem, faz das suas. Mas a bicha, cremos que por secretos méritos, tende a atrair o traço, um bicho que anda atrás da bicha, seguindo-lhe os cheiros que ela exala. Queriam assédio? Pois aí está: o traço pretende chegar ao pé da traça, por certo para constituir família, e deixa-se arrastar pelas feromonas que ela exala. Aqui entra o lado de desmancha-prazeres do viticultor: descobriu que se espalhasse pela vinha (pendurados na ponta das filas de cepas), uns cartões “barrados” com uma cola aspergida com as feromonas da traça, isso poderia atrair o traço. Neste ponto o assédio ganha novas formas porque a irresistível tentação feromónica leva o pobre do traço a colar-se ao cartão e, coitado, dali já não sai. O produtor, por sua vez, tira partido desta desorientação sexual do traço e pode averiguar, pela contagem de traços agarrados ao cartão, se a epidemia é séria, se será ou não preciso fazer algum tratamento. Este método, generalizado numa viticultura que quer reduzir tratamentos químicos, tem vindo a ser amplamente usado. Fica-nos sempre uma certa culpa de sentir que estamos a impedir um relacionamento duradouro e verdadeiro entre o garboso traço e a jeitosa traça mas é um pequeno preço a pagar para sermos mais amigos do ambiente. A vinha, coitada, está permanentemente a ser alvo de novas moléstias, algumas delas solucionáveis e outras bem mais complicadas. Há poucos anos houve um alarme sério, em vários países, a propósito da flavescência dourada, nome extravagante para uma moléstia que obrigou, onde foi detectada, a arrancar vinhas inteiras e a queimar as cepas para procurar debelar a doença. Aconteceu nos Vinhos Verdes e também no Dão, por exemplo. Mais recentemente surgiu novo problema que, diz-se mas ainda sem confirmação, pode ter chegado a Portugal vinda de Espanha por via das plantas prontas de oliveira importadas para os novos plantios. De nome ainda mais extravagante – xylella fastidiosa – esta bicha requer um equipamento específico para que os pés de vinha a plantar sejam colocados em ambiente próprio e a temperatura certa para matar o animal sem danificar a planta. Coisa cara, ao que se sabe, mas inevitável. Ficamos assim num registo de permanente sobressalto. Oídio? Míldio? Isso é coisa de meninos, é assunto que vem dos nossos avós. Agora estamos muito modernos e até nos entretemos a avariar a sexualidade da bicharada. Ai, ai…

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Grainha Reserva branco 2016
Região: Douro
Produtor: Qta. Nova Nossa Senhora do Carmo
Enologia: Jorge Alves
Castas: lote de quatro castas tradicionais
PVP: €13,90
Tem origem em vinhas com cerca de 20 anos. Nas castas inclui-se Fernão Pires que, embora presente na região, aparece pouco nos rótulos.
Dica: fresco, mineral, muito elegante. Um branco cheio de carácter.

Explicit tinto 2014
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Soc. Agríc. Jorge Rosa Santos & filhos
Enologia: irmãos Frederico, Jorge e Vasco
Castas: Syrah e Alicante Bouschet
PVP: €17,95
Produção familiar (15 742 garrafas) na zona da serra d’Ossa. Também existe em magnum. Rótulo informativo mas também algo caótico.
Dica: dominam as notas elegantes e o perfil é intensamente gastronómico. Tem um polimento geral que se aplaude.

Herdade do Rocim Clay Aged 2015
Região: Alentejo
Produtor: Rocim
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
Castas: Alicante Bouschet, Petit Verdot, Trincadeira e Tannat
PVP: €34,50
Feito em lagar com pisa a pé e estagiado em talhas de barro de pequena dimensão. Apresentação magnífica de bom gosto e sobriedade.
Dica: um belíssimo alentejano mas menos radical que outros fermentados em talha. Copos largos precisam-se.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back To Top
×Close search
Search