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Pias, o fenómeno

Um sucesso à margem dos cânones

A fama de um vinho ou de uma região derivam de alguns fenómenos, uns compreensíveis e outros não. A fama do nome Pias, insere-se no segundo grupo. E essa reputação é tanto mais inexplicável quanto Pias não é uma sub-região do Alentejo (como Borba ou Reguengos, p.e.) e os vinhos que se vendem com o nome de Pias tanto podem ser lá como não. Existirão várias razões para o prestígio um vinho ou de uma zona produtora. A primeira é, seguramente, a qualidade, sobretudo quando ela é percebida e valorizada por quem compra. Mas a fama também pode vir, por exemplo, da raridade e do preço elevado que um vinho tem e que se sobrepõe à região de origem. Todos temos em mente nomes como Barca Velha ou Pêra Manca que se tornaram ultrafamosos, apesar dos preços elevadíssimos (ou por causa deles); são muito procurados e essa procura excede em muito a oferta. A fama faz assim muito pelo vinho e ganha mais importância nas regiões que produzem todos os anos vinhos caros de châteaux famosos (como Bordéus), ainda que a qualidade não seja sempre idêntica. Por cá uma região ganhou também um enorme apreço dos consumidores, o Alentejo. Aqui foi a região como um todo que ganhou prestígio e fez dela a mais procurada. O consumo abrange vários formatos, da garrafa ao bag-in-box. Este substituto do garrafão adquiriu muito justamente um papel preponderante nas escolhas, pelas vantagens que todos sabemos. Acontece que o nome Pias apareceu e passou a ser conotado com bom vinho alentejano mas Pias não é sequer sub-região delimitada. Pedi à Comissão Vitivinícola do Alentejo (CVR) a lista dos vinhos que têm certificação e são oito com o nome Pias; numa busca rápida em algumas grandes superfícies, e observando também os vinhos em bag-in-box, encontrei mais cinco. Ora os vinhos que não têm certificação, que se chamam apenas vinho, podem ter origem em qualquer local do país ou da União Europeia, não restando qualquer certeza ao consumidor que está, sequer, a comprar vinho do Alentejo, quanto mais de Pias. A originalidade está aqui, o sucesso não é explicável pela especificidade do vinho, por reflectir os atributos daquele solo ou micro-clima mas tão-só por ter Pias no nome. Para usar a estafada expressão, andam todos a “cavalgar esta onda”, à conta de uma pequena terra que até pode produzir bom vinho mas que não está sequer previsto passar a sub-região, como nos informaram na CVR. Nomes como Castelo de Pias, Tesouro de Pias, Só Pias, Anta de Pias, Da Malta Pias (todos não certificados), juntam-se os Terras de Pias, Adega de Pias, Ermida de Pias, Monte das Pias, Monte da Igreja Pias, Encostas de Pias, Courelas de Pias, As Pias e Villa Pias. Um fenómeno, este de Pias, um verdadeiro furo comercial que muitas outras terras do Alentejo não descurariam. Mas, como sabemos, o segredo do sucesso está na descoberta do mapa da mina. Depois é fácil…

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Quinta do Vesúvio tinto 2015
Região: Douro
Produtor: Quinta do Vesúvio
Enologia: equipa dirigida por Charles Symington e Pedro Correia
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Amarela
PVP: €45 (à venda em Novembro)
A base é Touriga Nacional de zonas mais altas da quinta que proporcionam mais frescura ao vinho. 16 meses em barrica (75% nova).
Dica: Deve provar agora mas também reservar em cave para os próximos 10 a 15 anos.

Singular branco 2016
Região: Vinho Verde
Produtor: A & D Wines
Enologia: Fernando Moura
Castas: várias castas de vinhas velhas
PVP: €8,50
A quinta situa-se me zona de transição entre Verdes e Douro.
Dica: resulta mais gordo e cheio do que outros Verdes e é por isso mais polivalente.

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs tinto 2015
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Soc. Agríc. Dom Diniz
Enologia: Pedro Pereira Gonçalves
Castas: Touriga Franca e Syrah
PVP: €15
Vem de uma parcela específica da quinta. Estágio de 20 meses em barrica
Dica: surpreende pela elegância e polimento do conjunto. Um prazer à mesa.

This Post Has 2 Comments
  1. “Um fenómeno, este de Pias, um verdadeiro furo comercial que muitas outras terras do Alentejo não descurariam.”
    Caro João Paulo, este fenómeno de Pias é uma faca de dois gumes. Se por um lado pode ser visto como uma publicidade barata e fácil por outro lado pode ser visto como uma publicidade enganosa que não prestigia os bons e autênticos vinhos de Pias, pois como todos sabemos o que por aí se vende com o rótulo de Pias mas que não é produzido em Pias raramente são bons e cuidados vinhos. Se eu fosse produtor em Pias, preferiria com certeza que os rótulos de Pias fossem exclusivos dos vinhos produzidos em Pias. Minha modesta opinião.

  2. João Paulo, permita-me só mais um comentário: a região de Pias pertence à sub-região de Moura, reconhecida pela CVRA, como região produtora de vinhos DOC.

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