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Vinhos de ler, livros de beber (II) – Tejo

Revista Metrópoles

Tal como prometemos na anterior crónica, hoje falamos sobre vinhos e livros do Tejo. Uns mais vocacionados para as questões específicas da região, outros mais abrangentes que podem e devem ser conhecidos por quem se interessa, não só pelos vinhos, mas também pelos outros temas que normalmente associamos com o vinho: o azeite e, mais genericamente, a culinária regional. Na próxima edição, e em terceira intervenção sobre este tema, falaremos da região de Setúbal.

A região do Ribatejo foi desde sempre uma zona de produção vinícola, desde o norte da região até às areias que se estendem de Vila Franca de Xira até Alcochete. Num país onde por norma os vinhos tintos foram os preferidos dos consumidores é curioso verificar que esta zona sempre produziu mais branco do que tinto. O elemento mais marcante da região é o rio, é ele que condiciona a produção e o ritmo da vida das gentes ribeirinhas. Outrora mais agreste e mesmo perigoso quando repentinamente inundava margens e casas, hoje mais tranquilo e menos agressivo. As duas margens do rio Tejo são diferentes do ponto de vista geológico e as cheias periódicas a que o rio estava sujeito também determinaram sempre onde ficavam as terras mais férteis e onde estavam as zonas mais secas e pobres. Genericamente a região divide-se em três zonas: o Bairro, na margem direita do rio e onde dominam os solos argilo-calcários, com grande vocação para os tintos; o Campo, terrenos nas margens do Tejo, sujeitos às cheias e altamente produtivos e a Charneca, zona de areias da margem esquerda e que liga o Ribatejo ao Alto Alentejo e à região de Setúbal. Nas zonas férteis a produção de uva pode atingir quantidades incríveis. Há um ano, um lavrador disse-me que tinha uma vinha de Arinto que produzia 30 toneladas por hectare quando o normal para brancos anda pelas 10 toneladas) e na charneca, nas terras mais arenosas e secas a produção desce para valores “normais” e é aí que alguns dos melhores vinhos são produzidos, nomeadamente os brancos. A actual legislação contempla uma produção máxima de 80 hl/ha para o tinto e 90 para o branco.
A região está assim muito longe de ser um todo homogéneo e os solos são muito diversificados. Na zona de Tomar, por exemplo, existem terrenos xistosos que nada ficam a dever aos solos do Douro: ali é a pedra solta que surge em quantidade, a mesma pedra que tradicionalmente era usada pelos habitantes da região para fazer as suas casas. Ora, como se imagina, o comportamento do Arinto ou do Fernão Pires nestes terenos pobres e de difícil granjeio é muito diferente dos terenos fundos e férteis das margens do Tejo.
Terá sido esta diversidade, a que devemos associar as pretensões políticas e regionalistas das várias zonas do Ribatejo que levaram a que em 1989 se fizesse uma primeira demarcação da região, contemplando as pretensões das “forças vivas” de cada uma das sub-zonas. O erro não tardou a ser reconhecido: cada sub-zona queria ter a sua Comissão Vitivinícola (CVR) e a sua Câmara de Provadores. Parecia que todos se queriam “demarcar” da supremacia de Almeirim e Cartaxo, exibindo as virtudes regionais. Mas rapidamente se verificou que a diversidade era aqui inimiga da eficácia e em 2000 foram então aprovados por decreto os Estatutos da região, agora unificada, com uma só CVR. Mais tarde houve uma alteração do nome, passando de Ribatejo a “Do Tejo”. Algumas das tais sub-zonas desapareceram e outras quedaram-se em segundo plano; fecharam adegas cooperativas e, como seria natural, foram de facto as zonas do Cartaxo e Almeirim as que mais notoriedade acabaram por ter.
A região contempla produtores com pergaminhos antigos, hoje herdeiros de um passado marcado pelas produções que se contavam aos milhões de litros. Nomes como Quinta da Alorna, Fiúza, Qta. da Lagoalva, Falua e Casa Cadaval são alguns do nomes que continuam a marcar os vinhos da região, hoje com novos conceitos e novas castas. Curiosamente a casta branca mais marcante continua a ser muito cultivada. Fernão Pires de seu nome (na Bairrada é conhecida como Maria Gomes), gera vinhos com fruta madura, sobretudo pensados para o consumo em jovem; aparece com frequência ligada à ubíqua Arinto, sempre fornecedora de acidez nos vinhos em cujos lotes entra. Quase perdidas no tempo (por reconhecida falta de mérito ou, o que também é provável, insuficiente estudo) ficaram a Trincadeira das Pratas, o Tamarez e o Vital. Nas tintas é bom verificar que a Trincadeira e o Aragonez ainda cá estão, cada vez mais a fazer companhia às que chegaram de fora e que se habituaram ao clima, como a Syrah e a Touriga Nacional, entre outras.

Do galinheiro, da adega e do fogo de chão

Em terra de produção de vinho, em zona de produção de azeite (contemplada com uma Denominação de Origem Protegida – Azeite do Ribatejo), nada estranha que a gastronomia tenha acompanhado estes dois produtos da terra. Peixes de rio e caldeiradas, enguias e lampreias, enchidos e porco criado em casa, queijos de cabra e ovelha (vulgarmente misturados) são outros tantos ex-libris regionais. As variantes não são de zonas ou sub-zonas, por vezes são mesmo familiares, com receitas que passam de pais para filhos mas dentro da mesma família. Aqui estamos nas terras da sopa da pedra (Almeirim), da fataça na telha de Vila Franca, aqui nos restauramos com as morcelas de arroz (Tomar) ou com os maranhos e tigeladas de Abrantes. Terra de hortas, de produção para autoconsumo, de couves e hortaliças variadas, daqui muitos carros partiam ao domingo em direcção à capital, levando as famílias que tinham largado os campos e vieram servir para a cidade, quer na construção civil (os famosos patos-bravos) quer para os trabalhos a ela ligados, trazendo as couves, o azeite e os garrafões de vinho feito em casa. Sem tecnologia, sem objectivos comercias, apenas como lembrança de um passado saudoso, este vinho do lavrador alimentou gerações de ribatejanos e deixou no imaginário popular a ideia que o vinho do lavrador era o puro e, por isso mesmo, o melhor. O tempo encarregava-se no entanto de confirmar que aquela pureza por vezes nem um ano durava, o vinho não raramente azedava por falta de protecção quando já levava um ano de vida. Mas isso não era muito importante porque entretanto estaria a chegar o vinho novo e os ânimos voltavam.
A riqueza da gastronomia regional está bem patente no livro de Armando Fernandes, À mesa em Mação, editado em 2012 pela Câmara Municipal e também na obra editada em 1987 pelas Fábricas Mendes Godinho, Roteiro Gastronómico da Região dos Templários. O livro sobre Mação tem uma particularidade que merece todo o destaque: à recolha das receitas familiares associou-se quem de direito as elaborou. A lista de fotografias de gente simples que nos relata a sua experiência de vida e a sua relação com o parco alimento a que muitas vezes tinham direito, é um testemunho de inegável valor. É destas gentes que saem as receitas: simples, sem artifícios, sem tecnologia, sem saber académico; só e só o saber herdado dos antepassados. O resultado é brilhante e a obra ganha imenso com isso. O Roteiro Gastronómico é menos ambicioso nos propósitos mas reúne um conjunto de receitas muito interessantes, algumas delas, dir-se-ia hoje, completamente fora dos hábitos alimentares, como mioleira de porco, por exemplo. Fica a memória e a vontade de experimentar.
No fogo de chão onde sempre estavam panelas de ferro, uma com água a aquecer (para o que fosse preciso) e outra onde se iriam cozer as couves acabadas de chegar da horta, nesse mesmo local estavam pendurados os enchidos no fumeiro caseiro e ali permaneciam meses, curando lentamente. Na capoeira estavam galinhas e perus à espera do momento de festa em que fossem sacrificados. Ritmos rurais, saberes antigos, práticas em vias de extinção.
Os vinhos que hoje melhor representam a região vêm sobretudo de quatro zonas: o Cartaxo, onde a Adega Cooperativa local se tem mostrado activa e atenta às tendências do mercado; Almeirim onde, ainda hoje estão os maiores e principais produtores, acima citados e na zona das terras de areia pontificam os vinhos da Companhia das Lezírias, um verdadeiro império agrícola que soube adaptar-se aos novos tempos. Almeirim tem também uma das maiores adegas cooperativas do país, onde se vinificam cerca de 30 milhões de litros de vinho por ano. Do norte ribatejano, onde fechou a adega cooperativa de Tomar subsistem alguns produtores, com destaque para as Encostas do Sobral com vinhas em terras xistosas e vinhos de muito boa qualidade.
Outrora, digamos anos 60 e 70 do século passado, quando a região era sobretudo produtora de vinho a granel para as tascas de Lisboa, existiam algumas empresas com vinhos de qualidade que faziam figura de produtos de luxo: eram os vinhos da firma Carvalho, Ribeiro & Ferreira, a C. Vinhas (marca Ribalta) e os tintos e brancos de Francisco Ribeiro, este último com a particularidade de ter sido pioneiro na comercialização de vinhos varietais brancos, apresentando uma colecção notável de marcas. Estas empresas desapareceram entretanto mas, como que a justificar a fama que então tinham, alguns brancos e tintos de Francisco Ribeiro foram provados em 2016. Enorme surpresa ver um Fernão Pires sobreviver a 40 anos de garrafa. A demonstração que ter preconceitos vínicos dá muito mau resultado. O Ribatejo e os vinhos Do Tejo têm ainda muito para nos surpreender.

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